as canções de f.


Como se tivesse lido uma bula
Agosto 24, 2008, 9:42 pm
Arquivado em: Das ausências, Das neuroses, Das presenças, Prosas

Acabo de enxugar algumas lágrimas.

Sei bem as razões pelas quais as derramei, quando li o capítulo R do livro Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, que estou relendo com o cuidado que não tive na primeira leitura.

Respostas? Algumas. Especialmente entre as páginas 136 e 139, sobre as vacinas que vamos tomando na vida.

Sinto compaixão pelos que virão e não terão o que alguns tiveram antes delas – e não falo de um passado muito distante não. Um ano, quem sabe. Três meses, talvez. Uma semana, por certo.

“Entretanto, se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou seja, essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis: a cama não range, é improvável que o autoclismo do andar de cima vomite a esta hora o conteúdo limoso do seu estômago, perturbando as carícias sem ternura que são como que o motor de arranque do desejo, nenhum de nós sente pelo outro mais do que uma cumplicidade de tuberculosos no sanatório, feita da melancólica tristeza de um destino comum; já vivemos demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos, de vibrarmos nas tripas e na alma exaltações de aventura, de nos demorarmos tardes a fio diante de uma porta fechada, de ramo de flores em riste, ridículos e tocantes, a engolir cuspos aflitos de José Matias. O tempo trouxe-nos a sabedoria da incredulidade e do cinismo, perdemos a franca simplicidade da juventude com a segunda tentativa de suicídio, em que acordámos num banco de hospital sob o olho celeste de um São Pedro de estetoscópio, e desconfiamos tanto da humanidade como de nós mesmos, por conhecermos o egoísmo azedo do nosso carácter oculto sob as enganadoras aparências de um verniz generoso. Não é em si que não acredito, é em mim, na minha repugnância em me dar, no meu pânico de que me queiram, na minha inexplicável necessidade de destruir os fugazes instantes dáveis do quotidiano, triturando-os de acidez e ironia até os transformar no Cerelac da chata amargura habitual. O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, os Camilo Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuramo-los de bazooka ao ombro, raivosos, nas florestas da Bolívia, bombardeamo-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos connosco, cujos bigodes nos trepam pelo esôfago refluxos verdes de remorso. De forma que as relações sexuais constituem entre nós, percebe, uma violação mole, uma apressada exibição de ódio sem júbilo, a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão, à espera de reencontrarem o fôlego que lhes foge para verificarem as horas no relógio de pulso à cabeceira, se vestirem sem uma palavra, examinarem sumariamente no espelho do quarto de banho a pintura e o cabelo, e partirem, a coberto da noite, ainda húmidos do outro, a caminho da solidão de suas casas. Os que moram a dois, aliás, e dividem com má vontade o edredão e o dentífrico padecem de resto de um isolamento semelhante; ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de um rancor que se palpa no ar como a água de colónia das viúvas! Os serões junto à televisão acariciando projectos vingativos de assassínio conjugal, a faca do peixe, a jarra da China, um oportuno empurrão pela janela! Os sonhos minuciosamente detalhados do enfarte de miocárdio do marido ou da trombose da mulher, a dor no peito, a boca à banda, as palavras infantis babadas a custo na almofada da clínica! Possuímos pelo menos a vantagem, sabe como é, de dormir sozinhos, sem uma perna alheia a explorar as zonas frescas do lençol que por direito geográfico nos cabem, mas falta-nos simultaneamente alguém que possamos culpar do nosso fundo descontentamento de nós próprios, um alvo fácil para os nossos insultos, uma vítima, em suma, da nossa mediocridade despeitada. Você e eu, graças a Deus, não corremos esse risco, somos como dois judocas que se tremem o suficiente para não se ferirem, e inventam, quando muito, falsos golpes inofensivos que se detêm a meio do trajecto, à maneira de tentáculos subitamente inertes que desistem: se eu lhe dissesse que a amava você responder-me-ia, no tom mais sério deste mundo, que desde os dezoitos anos não sentia por um homem um entusiasmo idêntico, que qualquer coisa de diferente e de estranho a perturbava, que lhe apetecia como uma força de novilho nunca mais se separar de mim, e acabaríamos a rir, dentro dos copos respectivos, da inócua inocência de nossas mentiras. Mas suponha que havíamos despido, por minutos, o colete à prova de bala de uma maldade sabida, e éramos, por exemplo, sinceros? Que ao afagar-lhe a mão eu tocava, para além dos seus dedos de agora, que principiam a envelhecer sob os anéis, o pulso estreito de uma menina vulnerável e frágil, a mastigar pastilhas elásticas à sombra do desdenhoso retrato trágico de James Dean, arcanjo loiro cujo breve trajecto de cometa terminou abruptamente num cone fumegante de sucata? Que os seus seios endureciam de desejo verdadeiro, um arrepio esquisito lhe separava as coxas, o ventre se cavava de uma fome inexplicável e veemente de mim? Que maçada, hã? Os ciúmes, as necessidades exclusivas, o tormento obnóxio da saudade? Descanse, é tarde já, será sempre tarde para nós, o excesso de lucidez impede-nos os estúpidos e calorosos impulsos da paixão, o meu cabelo ralo e os seus pés-de-galinha, impossíveis de disfarçar sob a delicadeza do sorriso, defendem-nos do entusiasmo de estar vivos, do sonho sem malícia, do puro contentamento sem mancha de acreditar nos outros.”

Madame, talvez também sirva para você.

É ruim, eu sei. Não tem gosto doce, é dolorido e tem efeitos colaterais. Mas precisamos desse remédio.

Curados.


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Fê… não tenho palavras.
Obrigada por pensar em mim e chorar comigo sempre.
Você é muito especial. Está me ensinando cada vez mais sobre amizade, sobre caráter.
Lóviu mor den tiócolati
quissis

Comentário por Priscila




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