as canções de f.


O bom de morar em hotel
Julho 30, 2008, 8:03 am
Arquivado em: Das neuroses, Das presenças, Prosas

É que sempre surge um louco na sua vida.

Ontem, enquanto organizava umas coisas no meu computador e fones de ouvido me separavam do mundo, sentado no sofá da área comum, uma senhora de cinqüenta e poucos anos me fitava.

Vasta cabeleira loura, uma xícarazinha de chá na mão, olhos escuros, olheiras marcadas, me olhando.

Determinada hora, decidi sorrir. Foi o meu erro.

- Tudo bem? Você é de onde?

- Sou de Goiás e a senhora?

- Oras, chame-me de você. Sou brasileira, mas moro na Suíça.

- Está a passeio?

- Morte na família. Tenho que resolver coisas do inventário.

- Que pena, sinto muito.

- Não sinta, já foi tarde.

Fiquei calado. Não havia mais nada que pudéssemos conversar. Mas ela estava com a fala acumulada.

- Há mais de trinta anos estou fora do Brasil.

- Ah é? puxa, que legal.

- Os primeiros anos foram pesados. Fui para os Estados Unidos e me casei com um viciado em jogo. Que ganhava. Ganhou tanto que chamou a atenção do FBI e eles começaram a nos perseguir.

Meu pai do céu… eu não tinha mais o que dizer. Então ela continuou:

- Até que um dia, eu ainda fumava, pedi para meu marido pegar meus cigarros que tinham ficado no carro. Quando ele abriu a porta: boom! O único pedaço dele que ficou mais ou menos intacto foi o braço que caiu a dois metros de mim.

- Depois disso, eles apagram todos os meus dados dos sistemas cadastrais do país. Tenho de cor até hoje o meu social security number, mas se você acaso digitá-lo nos aparelhos dos hospitais, por exemplo, vai aparecer “Denied” escrito em vermelho.

- Desde então, vivi pelo mundo. Trabalhei em Macau e depois conheci meu marido numa feira de lentes ópticas em Zurique. Casei e tive dois filhos, gêmeos. Um é grande e outro é pequeno. Muito traumático para o pequeno, claro.

Eu que estava calado, decidi então falar:

- Seus filhos sabem de sua história?

- Contei há pouco tempo. Mas tenho medo que eles sejam perseguidos também, nunca se sabe.

Vi que era hora de me recolher. Olha, desculpe-me, mas tenho que me levantar muito cedo amanhã.

- Tenha uma boa noite, querido.

Subi, tranquei bem a minha porta e fui dormir com medo de o FBI estourar meu esconderijo.


4 Comentários até o momento
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kkkkkkkkkk Até vi a cena…que história…hauiahuia

Comentário por Lídia Amorim

“conversa prolongada”

- Boa noite, querido. Qual seu nome mesmo?

- Felipe. E o seu?

- Mata Hari.

HAIUHIAUHAIUAHAIAUHAIU

(Só não duvido de você pq já topei com o Enéas no banheiro)

Comentário por Rainer

Excelente! Lembrou esquete do Terça Insana, só que muito melhor! Viva Sampa: a cidade que concentra gente doida a cada centímetro quadrado.

beijos, meu bem.

Comentário por Vanessa Guedes

organizaçao terrorista okaida,vcs tem que acabar com isso!!

Comentário por thiago




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