É que sempre surge um louco na sua vida.
Ontem, enquanto organizava umas coisas no meu computador e fones de ouvido me separavam do mundo, sentado no sofá da área comum, uma senhora de cinqüenta e poucos anos me fitava.
Vasta cabeleira loura, uma xícarazinha de chá na mão, olhos escuros, olheiras marcadas, me olhando.
Determinada hora, decidi sorrir. Foi o meu erro.
- Tudo bem? Você é de onde?
- Sou de Goiás e a senhora?
- Oras, chame-me de você. Sou brasileira, mas moro na Suíça.
- Está a passeio?
- Morte na família. Tenho que resolver coisas do inventário.
- Que pena, sinto muito.
- Não sinta, já foi tarde.
Fiquei calado. Não havia mais nada que pudéssemos conversar. Mas ela estava com a fala acumulada.
- Há mais de trinta anos estou fora do Brasil.
- Ah é? puxa, que legal.
- Os primeiros anos foram pesados. Fui para os Estados Unidos e me casei com um viciado em jogo. Que ganhava. Ganhou tanto que chamou a atenção do FBI e eles começaram a nos perseguir.
Meu pai do céu… eu não tinha mais o que dizer. Então ela continuou:
- Até que um dia, eu ainda fumava, pedi para meu marido pegar meus cigarros que tinham ficado no carro. Quando ele abriu a porta: boom! O único pedaço dele que ficou mais ou menos intacto foi o braço que caiu a dois metros de mim.
- Depois disso, eles apagram todos os meus dados dos sistemas cadastrais do país. Tenho de cor até hoje o meu social security number, mas se você acaso digitá-lo nos aparelhos dos hospitais, por exemplo, vai aparecer “Denied” escrito em vermelho.
- Desde então, vivi pelo mundo. Trabalhei em Macau e depois conheci meu marido numa feira de lentes ópticas em Zurique. Casei e tive dois filhos, gêmeos. Um é grande e outro é pequeno. Muito traumático para o pequeno, claro.
Eu que estava calado, decidi então falar:
- Seus filhos sabem de sua história?
- Contei há pouco tempo. Mas tenho medo que eles sejam perseguidos também, nunca se sabe.
Vi que era hora de me recolher. Olha, desculpe-me, mas tenho que me levantar muito cedo amanhã.
- Tenha uma boa noite, querido.
Subi, tranquei bem a minha porta e fui dormir com medo de o FBI estourar meu esconderijo.
4 Comentários até o momento
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kkkkkkkkkk Até vi a cena…que história…hauiahuia
Comentário por Lídia Amorim Julho 30, 2008 @ 3:05 pm“conversa prolongada”
- Boa noite, querido. Qual seu nome mesmo?
- Felipe. E o seu?
- Mata Hari.
HAIUHIAUHAIUAHAIAUHAIU
(Só não duvido de você pq já topei com o Enéas no banheiro)
Comentário por Rainer Julho 31, 2008 @ 7:24 amExcelente! Lembrou esquete do Terça Insana, só que muito melhor! Viva Sampa: a cidade que concentra gente doida a cada centímetro quadrado.
beijos, meu bem.
Comentário por Vanessa Guedes Agosto 4, 2008 @ 4:46 pmorganizaçao terrorista okaida,vcs tem que acabar com isso!!
Comentário por thiago Fevereiro 28, 2009 @ 12:35 pm