as canções de f.


Vi passar cada dia
Maio 1, 2008, 3:07 pm
Arquivado em: Da vitrola, Prosas

Desta semana.

Também cada minuto de extremo cansaço. Fiquei num estado tão estranho que as pessoas ficaram dez vezes mais irritantes que o normal, o barulho aumentou cinqüenta vezes mais do que já apoquenta em dias mais calmos, os pensamentos ficaram mais efêmeros do que já são. Tudo porque, além de ter emendado as semanas num mesmo ritmo, várias outras coisas vieram juntar-se ao peso sobre minhas têmporas, doloridas de frequência.

Preocupações, ausências, saudades, além de ter dormido pessimamente.

Mas não vou ficar destrinchando tais coisas. Por mais que estivesse envolto de incômodos, os dias não foram de todos perdidos, porque houve poesia em alguns deles. Foi por causa dela que tentei manter o controle.

Escreveu o poeta Octavio Paz:

“Llegas, silenciosa, secreta,
y despiertas los furores, los goces,
y esta angustia
que enciende lo que toca
y engendra en cada cosa
una avidez sombria.”

Mas não é obscura, como pensam. Ela projetou sombras quando o sol estava cáustico e, de tão seco, os pulmões pediam arrego. Como, por exemplo, a brisa que foi o show de Ricardo Júnior (clique aqui para ouvi-lo), no teatro do Crowne Plaza, na última terça-feira, que assisti acompanhado do meu xará favorito e da conterrânea mais paulistana que eu já conheci.

Um hora e pouquinho de plena suspensão.

Na fila F, cadeira 04, rememorei os tempos em que ouvia o Ricardinho quando ele ainda fazia parte de uma banda cover dos Beatles, chamada Bitkids. Eu ainda morava em Goianésia, já gostava da melhor banda de todos os tempos e curtia o som que os garotos faziam.

Eram dias de incertezas para mim. Separação de meus pais, definições que estavam se desenhando para toda a vida, anseios mal correspondidos, sonhos ainda tão distantes que, se não podia senti-los com maior propriedade, não podia nem dizer de que cores eram.

No aparelho de som, Bitkids não descansavam um minuto sequer. Aliás, o disco foi um dos primeiros cds que eu ganhei na vida, numa época em que, por mais que já estivéssemos no fim de uma era, os bolachões ainda eram uma presença constante lá no interior de Goiás.

No show de terça-feira, não voltei àquele tempo, mas passeei pelos dias que mais foram importantes para este que sou hoje. E foi muito bonito constatar que, ao ver o Ricardo Júnior se apresentando agora, quase quinze anos depois, já maduro de sua musicalidade e vivendo como todos nós sobre um passado às vezes não muito confortável – e até mesmo doloroso -, eu mesmo me percebi como parte de uma evolução, acredito que bastante comparada àquela pela qual ele passa.

Constatei também que os Bitkids estiveram nos momentos decisivos de meus dias. Tal qual as sextas-feiras de filme e pipoca na casa da Isabel, minha amiga de mais longa data, que costumava ouvir Help! comigo.

E o Ricardo Júnior, o Paul McCartney de minha infância, agora em disco solo, ainda tocando ao lado do também Junior, o John Lennon daqueles dias, abriu em igual proporção um espaço muito importante neste momento definitivo de minha vida em início de São Paulo.

Eu que vinha de um final de semana muito divertido, porém de muito trabalho, aproveitei cada nota, cada arranjo, cada solo, as participações especiais, as novas amizades. Aliás, que bom começar uma rede de amizades com gente tão bacana.

O disco solo já está encomendado, devo recebê-lo na segunda-feira. Sucumbi aos desejos do autógrafo e pedi que viesse dedicado. Afinal, mesmo que o Ricardo Junior não saiba, sou fã de várias primaveras.

Uma semana pode ser salva por uma única noite.


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