Ou roem as unhas desesperadamente como eu, ou sentem o frio se apertar na barriga como eu, ou vêem, como eu, a sexta-feira, ontem, se arrastar lentamente. Tudo por conta da expectativa do show do Rod Stewart, no Palestra Itália, na noite passada.
Pessoas ansiosas como eu sofrem diante da espera, com as peças pregadas pela imaginação, da vontade de ver os ponteiros dos relógios – todos eles, sem exceção – rodearem malucos os seus círculos cotidianos, porque não aguentam imaginar que, em poucos instantes, estarão vivendo o que tomaram para si como a realização de seus sonhos.
É, eu confesso: foi essa proporção que o show do Rod Stewart tomou para mim nessa semana que se passou desde o dia em que escrevi um post falando dos dias que me separavam da noite de ontem (leia-o aqui). Mas mesmo que fosse um dia todo, como o de ontem, ou uma semana inteira, como esta que morre hoje, a ansiedade da espera me deixa distante da racionalidade de pensar: mas o que é um dia ou uma semana diante de todo este tempo que a gente espera pela chegada daquilo que a gente não sabe nem o que é?
Bem, tirando como exemplo a minha experiência de ontem, posso dizer com propriedade que é muito, mas muito tempo sim. Um tempo que não passa, que angustia, que maltrata, porque cobro para mim a responsabilidade de, ao me entregar às torturas da ansiedade, esperar, de observar o tempo, de tentar domá-lo, de meter o dedo na dança dos ponteiros.
Trabalhei muito nesta sexta-feira. Quanto mais eu olhava no relógio para me inteirar das horas, mas eu adiantava o meu serviço. O que me levou a pensar que, agindo daquela forma, eu me tornava protótipo do meu próprio texto, escrito na quinta-feira, em que dizia que o tempo é livre, nós é que somos presos.
E me algemei à minha ansiedade.
Até que deu o horário, por fim, de bater o ponto, caminhar até minha casa, lanchar, tomar um banho, vestir minha roupa especial para o evento – e também porque ontem fez frio de bater queixos – e partir rumo àquilo que tanto esperei, desde o dia em que senti o papel do ingresso nos meus dedos.
Fui rezando: primeiro para que nada de mal me acontecesse, depois para que não chovesse e, especialmente, agradecendo a oportunidade de ver um grande ídolo.
Quando cheguei ao estádio do Palmeiras, vi que o conselho celestial estava do meu lado: famílias inteiras, de avós a netos, chegavam acompanhadas para ver uma das lendas do rock’n'roll; a garoinha fina foi logo espantada pelo vento gelado (o receio da chuva também foi embora quando recebi, da organização do evento, uma capinha de chuva, para o caso dela cair); e o meu lugar, a uns trinta metros do palco, tão próximo mas tão distante de um dos caras que mais ouço na minha vitrola.
Ganhei de brinde o Nando Reis, que abriu o show do Rod. Hits nacionais que, mesmo conhecendo, não sei cantar muito bem. Até que, com dez minutos de atraso (devidamente desculpados no palco), ele surge com seu típico paletó amarelo, fazendo a turba se levantar ensandecida, cantando, palavra por palavra, um clássico da Bonnie Tyler gravado no álbum mais recente: It’s a heartache, nothing but a heartache…
Meu coração doía de felicidade, de encantamento. Soltei a voz e dancei muito, cada uma das dezoito canções que ele cantou, a voz rouca porém límpida, cristalina, o sorriso no rosto, os cabelos em eletrostática e uma presença de espírito que, tão logo no palco, substituiu todos os meus anseios.
Se eu tinha passado a sexta-feira contando os minutos, adiantando mentalmente as horas, para que aquele momento chegasse mais depressa, naquele momento eu pedia a Deus para que o tempo se arrastasse, para que cada segundo durasse um pouco mais de sua fração.
E foi assim que eu fiquei durante todo o show, suspenso no tempo de cada melodia: I Don’t Wanna Talk About It, Baby Jane, Do Ya Think I’m Sexy, Sailing, The First Cut is The Deepest, Tonight’s the Night, entre tantas outras.
Assistir ao concerto de Rod Stewart na noite de ontem foi, para mim, como um sonho. Mas de olhos bem abertos e vários passinhos de dança.
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