as canções de f.


Pílulas de tempo
Abril 3, 2008, 10:23 pm
Arquivado em: Das neuroses, Pílulas

hora.jpg

Não há castigo maior que ter tempo demais.

Já reclamei muito das vezes em que o tempo me pareceu passar com maior velocidade. Afora a noção temporal que desenvolve a Física Quântica, fiz tremenda injustiça por não respeitá-lo em sua condição – oras! – de tempo.

Há uma corrente por aí equacionando as seguintes variáveis: o tempo que vai corresponde à proporção direta do tempo que resta. Isso me dá a sensação de que não se vai para lugar algum.

Aliás, as dimensões de espaço e tempo estão intimamente ligadas. Só se consegue se prescrever como indivíduo, a certeza de seu ser temporalmente sensível, se houver uma delimitação dessa constituição de tempo numa determinada espacialidade.

O tempo estaria então, dessa forma, ligado à noção de limite?

Já pensava Winnicott: o início para um sentido de ser de cada um está ligado a um gradual e constante processo de integração no espaço e no tempo de acordo com uma realidade. O desenrolar do processo de integração culmina na formação de um “si mesmo” unitário.

Para ele, ter essa noção de “si mesmo” unitário não corresponde necessariamente ao fim do processo de integração, mesmo porque ele está ligado ao sentido de ser de cada um, que só pode ser alcançado em sua totalidade quando essa existência se extingue, ou seja, na morte.

Será por tudo isso, o deixar de ser, a razão para o medo que se tem de morrer?

Sigmund Freud, numa entrevista publicada no livro Glimpses of the Great, do jornalista George Sylvester Viereck, nos idos de 1930, disse: “É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer”.

Ele ainda explica: “No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo”.

Isso me faz pensar na existência de um tempo de vida, um tempo de morte e um tempo de excesso. E o que é o tempo que faz a ligação entre eles?

Questão ontológica e um tanto quanto deontológica: seria esse elo o agora?

Tempo e espaço estão tão conectados que podem, talvez, por meio de uma complicação do pensamento, expressar essa noção por meio do devir. Basta pensar em Heráclito de Éfeso e Lulu Santos: não se pode se banhar duas vezes no mesmo rio, isto é, nada do que foi será do jeito que já foi um dia.

Será isto que nos permite afogar nesta ilusão de conhecer o tempo futuro próximo? O minuto por vir?

De nada adianta. Escreveu Fernando Pessoa no tempo que criou em si para que Ricardo Reis pudesse existir: “Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,/ E deseja o destino que deseja;/ Nem cumpre o que deseja,/ Nem deseja o que cumpre”.

Eis aí uma explicação muito sistemática para o surgimento da impaciência.

Aliás, a espera é cada vez mais dolorosa no nosso caminhar para lugar nenhum (tempo que vai = tempo que resta). E ainda queremos ter todas as informações possíveis, todos os complementos verbais, em tempo real?

E os complementos nominais?

O tempo é livre. Nós é que somos presos.


1 Comentário até o momento
Deixe um comentário

Cara, meu porra meu….

=´] esse final é de emocionar açougueiro cara!!!

demais!! huaHUAhuaHUAUHA serio!

abração!

Comentário por Filipe




Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>