nessa próxima semana
até o seguinte fim de semana, me dedicarei ao andamento do meu romance.
preciso me concentrar e recobrar energias perdidas em situações que em nada se relacionam ao meu trabalho.
tenho que ter disciplina e, por isso, tomei a decisão.
devo dar atenção também à minha mudança.
espero que entendam minha ausência, caso eu me ausente.
tentarei escrever sempre que possível, mas sem a obrigação de fazê-lo.
assim evito escrever qualquer coisa aqui (como esse aviso por exemplo) e tento salvar as últimas páginas do meu livro.
Filed under: Vespertinas | 2 Comments
é escutando a trilha sonora
de ”a single man”, um dos filmes mais elegantes do ano passado, olhando vez ou outra para uma estante de livros antigos da biblioteca municipal onde agora estou, que me lembro de tudo aquilo que quis ser um dia e que, com o tempo que passa, deixei envelhecer em alguma parte de mim.
não sei se por conta do cheiro dos papéis antigos ou pelas nuvens carregadas que agora sobrevoam meu estômago. ouço claramente o barulho que fazem quando são despertas. umas bocejam, outras reclamam, várias sorriem de felicidade – o que, aliás, não teriam a obrigação de fazer. pois sim, não tenho receio algum de tê-las abandonado.
para o bem ou para o nada, fui substituindo uma após a outra, quando aquela já não mais me convinha e a futura me parecia mais promissora. não sinto culpa alguma disso, nem de contá-lo. o que me faz pensar: e o que é a culpa?
para o dicionário, é atitude ou ausência de atitude de que resulta, por ignorância ou descuido, dano, problema ou desastre para outrem. todavia, para mim, é apenas uma desculpa muito baixa que damos à sociedade – mas também a nós mesmos – na tentativa de negar nossas ações torpes que nos dão imenso prazer.
é, não sinto culpa. já senti, de fato. todavia não é mais uma coisa que me dá agonia ou que ocupa parte do meu tempo. tudo porque aprendi, nesse próprio tempo economizado, a não me arrepender de nada em minha vida, especialmente daquelas situações em que agi mal ou que, por inexperiência ou teimosia, tomei decisões erradas.
as memórias de todas as coisas que eu quis ser um dia, por exemplo, não me trazem nostalgia e o abandono delas no trajeto não me fazem sentir arrependido. não tenho condicionais quicando em meus pensamentos com seu irritante e-se-e-se-e-se. e o orgulho que sem muita timidez brota dessas certezas afasta qualquer medo que eu pudesse ter nessas horas.
abandonar algo em prol de outra oportunidade que se apresente melhor nunca foi um problema para mim (o que não quer dizer que eu me mantenha intacto na travessia). especialmente porque acredito que uma lembrança, por sua condição específica, só poderia ser submetida aos princípios da renúncia e da resignação aos quais está intimamente relacionada.
oras, quando criança, eu quis ser carteiro, porque, para mim, era uma das profissões mais bonitas que existiam. mas o que dizer da vida se ela me levou a escrever cartas e não a entregá-las? deveria eu me sentir culpado por ter feito a escolha que mudou todos esses planos e também mergulhar em nostalgia por recobrar o momento exato em que tomei a decisão de fazê-la (pois sim, se ainda me lembro)?
a resposta é simples e bonita na brevidade de um não; e tenho a felicidade de acreditar nela e admirar sua realidade. então, sim é uma pergunta plausível, por que razão estou divagando tanto sobre o tema e me dedicando a fazer um pequeno ensaio que mais parece uma tentativa de auto-convencimento que qualquer outra coisa?
a resposta é: eu não sei lidar com as memórias e as nostalgias alheias. se para mim o abandono sempre foi um processo ordinário, custa-me ver, sempre que ocorre, o quão difícil se torna passar pelo mesmo processo as outras pessoas, especialmente aquelas que estão próximas a mim.
tentando analisar e compreender o que acontece comigo nesse momento de sentimentos passivos, cheguei à hipótese de que conviver com as memórias dos outros e a aura de nostalgia que a eles envolve durante o processo de desprendimento do que já passou aflora substancialmente o meu egoísmo.
mas não o egoísmo no sentido do dicionário, que o define como um exclusivismo que leva uma pessoa à excessiva vaidade, pretensão, orgulho, presunção, mas sim aquele difinido pela filosofia de kant, que disse ser o egoísmo uma paixão humana fundamental, que consiste na submissão do dever ao interesse particular, em detrimento da obediência à lei moral.
ou seja, em palavras mais simples, o amor-próprio (revestido em mim numa capa dura que ainda não sei se devo abrandar), cuja presença me alaga exatamente igual a quando começa a chover no meu estômago e a música segue.
Filed under: Vespertinas | Leave a Comment
moram num apartamento
típico da classe média espanhola.
é espaçoso, cheio de coisas (cada uma em seu lugar preciso de desorganização) e, claro, tem olivia, a cadela, passeando por entre nossas pernas.
sentamos à mesa redonda, enquanto ele, o filho-mais-velho, começava a preparar a comida para a senhora-sua-mãe e para a senhora-sua-tia. por respeito a uma casa que nos recebe, leo fala baixo. eu quase não falo. aquela cozinha era maior que a nós todos.
o irmão do filho-mais-velho entra e sai freneticamente, falando coisas rápidas que não me pedem o esforço para compreendê-las. mas, sim, entendi bem: reclamando de uma crise de nervos, foi fácil ler em seus olhos opacos todas as suas carências de filho-do-meio.
enquanto trocamos palavras e temperos, dos ruídos que vinham da parte desconhecida do apartamento apareceu a senhora-sua-mãe e seus olhos azuis translúcidos, seu sorriso amável de abuela, balbuciando palavras ditadas pela voz invisível de uma médico alemão em sua mente desvanecedora.
comerá conosco, mas pouco tocará a comida. aquela senhora de muitos anos tem frio e busca um roupão azul, de flores amarelas, que ostenta com pouco orgulho. faz o sinal da cruz repetidas vezes e não sabemos se é por muita fé ou se porque não se lembra de já tê-lo feito anteriormente.
o irmão-filho-do-meio está ali, como nesses programas de tevê, vendendo-se como a mais amável das pessoas a prestações, conversando sobre assuntos esparsos, ponteando sobre a reforma corrente em outro apartamento da família os detalhes estéticos dos azulejos rosa-balenciaga ou seu desprezo pelo minimalismo-kenzo.
diz-se, por fim, transtornado pela tragédia no haiti. não me engana, pois sua voz deleita-se em imagens de braços mutilados em escombros. meu anjo-da-guarda se pôs a trabalhar naquele momento.
enquanto a abuela comia – ou pelo menos fingia muito bem comer, para que pudesse tomar seu cálice de vinho – evitei os olhares desse homem de quase cinquenta anos e pensamentos medievais, cheio de amargura e conformismo, com receio de que pudesse demonstrar a ele o desprezo que sentia por sua figura – palavra forte, mas inevitável – medíocre.
não queria que notasse em meu olhar a admiração que sentia naquele momento pelo filho-mais-velho cozinhando para a família com um coração que não exigia reconhecimentos. não queria que visse palavras invisíveis, mas existentes, e que lhe diriam o que deve ter sempre ouvido ao longo de sua vida: que você pudesse ver o exemplo do seu irmão.
ali, naquela cozinha de um apartamento desconhecido, não me sentia desconfortável, mas reconhecia minha condição de forasteiro, de possuir uma visão distante daquele cotidiano. baixei então a cabeça alguma vezes, para que pudesse controlar meus pensamentos, mantê-los intactos detrás dos meus olhos.
mas há sempre algo que chama a atenção. a abuela decidiria não mais comer para recordar situações que jamais saberei se são realmente lembranças ou, se tentarmos enxergar pelo lado positivo, ficções criadas por uma cabeça sempre renovada por uma enfermidade. “vocês ficarão aqui para o sempre de toda a vida?”, ela nos pergunta.
eu me abstenho dos comentários e lhe ofereço meu mais doce e sincero sorriso, como se eu estivesse vendo em sua pele marcada o jardim descrito num livro do escritor rubén dario que havia folheado minutos antes: “con más rosas que azaleas y más violetas que rosas”.
ela decide então voltar ao seu aposento, se despede. e enquanto a luz nos deixava pela porta, ainda sentados à mesa, ouvíamos coisas da boca do irmão-filho-do-meio, que poucas vezes nos olhava de frente. e se o fazia, tinha uma voz estranha, tremida. sim, mais uma prova de que meu anjo-da-guarda é forte.
eu precisava sair dali e queria voltar para casa. se shakespeare pudesse escrever um roteiro de cinema, ali estaria uma boa cena, pois algo de podre havia no reino daquela cozinha.
e ao me dar conta desse meu pensamento, enquanto olivia me pedia atenção com suas patinhas sobre minha perna, lembrei-me de uma frase do dramaturgo inglês que poderia resumir tudo o que se passou na tarde de hoje: “em um minuto há muitos dias”.
assim, levantamo-nos e saímos.
Filed under: Noturnas | Leave a Comment
literatura ordinária
é o nome do projeto coletivo que, muito breve, fará parte desse blog.
para começá-lo, convidei a algumas pessoas que conheço - todas elas atuando em distintas áreas – para escreverem um texto de, no máximo, quatro parágrafos e cujo início deve ser “Depois de limpar as marcas de pasta de dente na pia,…”.
todos temos formas muito diferentes de escrever e será um prazer conhecer narradores, personagens e tramas que partirão da mesma origem.
o intuito é mostrar que a literatura é acessível a todos que dela usufruem, seja lendo ou escrevendo.
se você, que me acompanha nesse blog, quiser participar, sinta-se em casa. basta seguir as duas condições já apresentadas e enviar seu texto para o endereço de e-mail indicado na barra lateral dessa página.
que tal?
Filed under: Noturnas | 1 Comment
sobre os dez filmes e as dez músicas da década, os cem melhores looks para 2010, entre tantas outras, refletem uma tendência de sistematização que presume importância generalizada.
e não é bem assim. criar listas sempre foi e continuará sendo um sistema individual baseado em critérios pessoais – e muitas vezes íntimos, o que, por princípio, já afasta a idéia de importância geral.
o jornalista eduardo horácio tem publicado em seu site uma série de listas de diferentes pessoas que, de forma mais acadêmica ou diletante, selecionaram os seus dez filmes da década.
alguns dos nomes que estão ali são meus amigos, como o próprio eduardo horácio e também marco aurélio vigário e mariana tramontina, o que, pela proximidade que tive com eles, me permitem entender as suas escolhas (ou pelo menos tentar entendê-las).
lisandro nogueira, que foi meu professor e orientador na universidade e na especialização e agora é um grande amigo, ao fazer a lista dele, usou como quesito muito mais para seleção que para avaliação a maneira como as produções dialogaram com ele tanto em forma e conteúdo.
decidi não ficar de fora e fiz também a minha lista, que primeiramente deixei como comentário no blog do lisandro e agora publico aqui. para chegar aos dez filmes, o meu critério foi a importância que esses filmes tiveram em meu processo pessoal de melhor compreensão do cinema.
são eles (sem ordem de importância):
1) As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand;
2) Fale com Ela, de Pedro Almodóvar;
3) Vera Drake, de Mike Leigh;
4) A Criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne;
5) O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento;
6) 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu;
7) A vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck;
8) Caché, de Michael Haneke;
9) Santiago, de João Moreira Salles;
10) Oldboy, de Chan-wook Park.
claro que há muito mais filmes que devem ser lembrados e que apontam sempre para a debilidade das listas e para o desconforto que é fazê-las.
mas é justamente por isso que continuamos listando, porque aquilo que conforta e é unânime, parafraseando nelson rodrigues, é um tanto burro.
Filed under: Vespertinas | 1 Comment