as canções de f.


Exercício 18
Junho 8, 2009, 6:01 pm
Arquivado em: Das neuroses, Poesias

Meu beijo,
que faz fechar punhos
em noites frias,
tem a mesma intenção
das mãos em cabelos virgens
que ululam no ar quente
das tardes de infância.

Meu sexo,
que tantas vezes
descompassa imagens
erroneamente imaginadas,
tem a mesma poesia
da divergência de nossos reflexos
em espelhos que nos mostram
a igualdade de nossas belezas.

Meu amor,
que de tão questionado
existe como a fé
em deuses de altares
variados, me alegra e dói, tão
ambivalente quanto as lágrimas
em corações que independem
de rótulos ou permissões.

Minha mente,
sem distinção que a destoe,
tem asas – ainda que de Ícaro, e
é livre como a sua.
Constrói castelos, colore casas,
arruma quadros em paredes brancas
nas quais projetamos a vida
de todos os dias.

Porque assim estamos
você e eu, distantes, mas pertos,
unidos na humanidade
de nossas veias que choram
em colos de mãe
ou de nossos olhos que riem
no beijo de um namorado.



Terapia de confronto
Junho 1, 2009, 11:50 pm
Arquivado em: Prosas

Paredes brancas.

- Quanto tempo ainda falta?

Ouve-se uma voz arranhada no cômodo ao lado. Tijolos de diferenças.

Uma televisão desligada, as chamas do fogão apagadas e um dedo no interruptor sem saber o que querer de sua existência.

Um olho parado, o outro, amando, não grita.

- Falta muito?

Amarra o cadarço, ajeita o o botão da manga da camisa e o vinco da calça.

O pé brinca com o tapete.

- Eu te ligo.

Acende a luz, vira a chave e fecha a porta.

Paredes brancas.



You found me…
Maio 31, 2009, 6:45 pm
Arquivado em: Das neuroses, Do cinema



Exercício 17: Quinta-feira
Maio 28, 2009, 3:41 pm
Arquivado em: Das ausências, Das neuroses, Poesias

Quimeras retidas em retinas inversas
em fios de queratina em banho de lágrimas
e os olhos que vêem o sol por entre núvens diárias,
cheias de dúvidas, não mais enxergam tempestades,
enquanto as folhas sobrevivem dependuradas
nas árvores.



De banho tomado
Maio 24, 2009, 6:42 pm
Arquivado em: Das presenças, Prosas

Aquecido pelo agasalho e esperando a pizza ficar pronta, ouço a uma rádio francesa via internet, que toca clássicos.

Lá fora já é noite, mas aqui ainda é dia. Acabamos de chegar do Ibirapuera e nos aguarda o tabuleiro promissor de um banco imobiliário, suas casa e hotéis em regiões que já conheço.

No banheiro, problemas de válvula. Sobre a cama, lençóis que secaram de ontem para hoje. Uma das meninas está ao telefone, a outra organiza o guarda-roupa.

Quem me fez bem o fim de semana inteiro está sentado no sofá ao lado e vai dormir em minha cama.

As noites de domingo tem sim um charme único e que, em dias como hoje, anula a indicação que, esqueçamos de tudo, porque amanhã é dia de voltar à realidade de uma segunda-feira.

A pizza cheira no forno. Mas o coração está ocupado.

Essa é a última semana de maio e a primeira do terceiro mês.



Exercício 16
Maio 21, 2009, 6:00 pm
Arquivado em: Das presenças, Do cinema, Poesias

Kieślowski coloriu seus olhos
e enquadrei seus gestos
em planos fechados.

Estamos os dois suspensos
no ar que envelhece a película
de ilusões ainda não filmadas.

As músicas que ouço
embalam os bailes diários
no resguardo das vontades.

E as cenas em que nos vejo
por detrás dos olhos aumentam
a ansiedade real dos toques.

Quantas palavras serão necessárias
para desvendarmos a ficção palpável
da rosa púrpura do Cairo?