Meu beijo,
que faz fechar punhos
em noites frias,
tem a mesma intenção
das mãos em cabelos virgens
que ululam no ar quente
das tardes de infância.
Meu sexo,
que tantas vezes
descompassa imagens
erroneamente imaginadas,
tem a mesma poesia
da divergência de nossos reflexos
em espelhos que nos mostram
a igualdade de nossas belezas.
Meu amor,
que de tão questionado
existe como a fé
em deuses de altares
variados, me alegra e dói, tão
ambivalente quanto as lágrimas
em corações que independem
de rótulos ou permissões.
Minha mente,
sem distinção que a destoe,
tem asas – ainda que de Ícaro, e
é livre como a sua.
Constrói castelos, colore casas,
arruma quadros em paredes brancas
nas quais projetamos a vida
de todos os dias.
Porque assim estamos
você e eu, distantes, mas pertos,
unidos na humanidade
de nossas veias que choram
em colos de mãe
ou de nossos olhos que riem
no beijo de um namorado.
Arquivado em: Prosas
Paredes brancas.
- Quanto tempo ainda falta?
Ouve-se uma voz arranhada no cômodo ao lado. Tijolos de diferenças.
Uma televisão desligada, as chamas do fogão apagadas e um dedo no interruptor sem saber o que querer de sua existência.
Um olho parado, o outro, amando, não grita.
- Falta muito?
Amarra o cadarço, ajeita o o botão da manga da camisa e o vinco da calça.
O pé brinca com o tapete.
- Eu te ligo.
Acende a luz, vira a chave e fecha a porta.
Paredes brancas.
Quimeras retidas em retinas inversas
em fios de queratina em banho de lágrimas
e os olhos que vêem o sol por entre núvens diárias,
cheias de dúvidas, não mais enxergam tempestades,
enquanto as folhas sobrevivem dependuradas
nas árvores.
Aquecido pelo agasalho e esperando a pizza ficar pronta, ouço a uma rádio francesa via internet, que toca clássicos.
Lá fora já é noite, mas aqui ainda é dia. Acabamos de chegar do Ibirapuera e nos aguarda o tabuleiro promissor de um banco imobiliário, suas casa e hotéis em regiões que já conheço.
No banheiro, problemas de válvula. Sobre a cama, lençóis que secaram de ontem para hoje. Uma das meninas está ao telefone, a outra organiza o guarda-roupa.
Quem me fez bem o fim de semana inteiro está sentado no sofá ao lado e vai dormir em minha cama.
As noites de domingo tem sim um charme único e que, em dias como hoje, anula a indicação que, esqueçamos de tudo, porque amanhã é dia de voltar à realidade de uma segunda-feira.
A pizza cheira no forno. Mas o coração está ocupado.
Essa é a última semana de maio e a primeira do terceiro mês.
Kieślowski coloriu seus olhos
e enquadrei seus gestos
em planos fechados.
Estamos os dois suspensos
no ar que envelhece a película
de ilusões ainda não filmadas.
As músicas que ouço
embalam os bailes diários
no resguardo das vontades.
E as cenas em que nos vejo
por detrás dos olhos aumentam
a ansiedade real dos toques.
Quantas palavras serão necessárias
para desvendarmos a ficção palpável
da rosa púrpura do Cairo?